Virou senso comum afirmar que a democracia no Brasil está em risco por causa da possível vitória esmagadora da coalizão governista nas eleições de 2010. Afora o medo espalhado sobre a volta da censura, com o projeto de controle social dos meios de comunicação, há a visão de que estaria sendo eleito um Congresso "servil" aos interesses do governo, com grande maioria governista. Ora, não é isso que se pretende numa democracia? O que há de anti-democrático no governo da maioria? Ninguém está falando que será um governo de partido único, mas de uma simples maioria. Aliás, nos países que adotam o parlamentarismo, quem não tem maioria no Parlamento não governa! Onde isso atenta contra a democracia? O que garante a democracia são as liberdades individuais, a liberdade de imprensa e instituições sólidas, para fazer valer as leis e principalmente a Constituição. De resto, não há nada mais democrático do que o governo da maioria.

 

No final do último post, argumentei que era preciso utilizar a força da China a nosso favor. Como numa luta de judô, se ficarmos parados seremos presa fácil mas se soubermos utilizar a força da China, podemos encaixar um contragolpe. Ou seja, temos que nos utilizar das importações baratas da China para mantermos uma inflação baixa, equiparmos nossas famílias de bens importantes como computadores e outros bens de informática e telecomunicações e alavancarmos nossos investimentos, com a importação de máquinas, equipamentos e também insumos para nossas indústrias mais competitivas. Se insistirmos na estratégia de uma economia diversificada à custa do fechamento de mercados, seremos engolidos paulatinamente pela China, pois é impossível competir com as vantagens comparativas construídas pela China. Esta impossibilidade advém do fato de que somos uma democracia com um arcabouço de leis que protegem o meio ambiente e os direitos sociais e ainda com a repartição de competências com os Estados, que nos dá uma capacidade de indução do investimento muito menor. Sendo assim, o Brasil precisa preservar apenas os setores industriais que se diferenciem no mercado internacional pela alta capacidade de inovação. Setores com baixo conteúdo tecnológico e cuja competição se faça sobretudo pelo preço só são preservados com alto custo para o consumidor, o que pode ser aceitável no curto prazo mas como política de longo prazo é desastroso para o país pois impede o acesso aos consumidores, inibe a competição e a inovação, represando recursos produtivos em setores de baixa produtividade. Isso quer dizer que o Estado deve ficar assistindo à morte da nossa indústria? Obviamente que não, ao Estado cabe induzir os investimentos nos setores desejados através de uma política industrial ativa e amenizar os efeitos da transição sobre as indústrias perdedoras, principalmente sobre os trabalhadores destas indústrias, uma vez que o capital se transforma com facilidade, ao contrário da mão de obra. Não é a toa que as indústrias sempre utilizam o argumento dos emprego como instrumento de pressão nas negociações com o governo sobre a necessidade de proteção ou obtenção de vantagens tributárias. Outro aspecto a ser considerado é que geralmente as indústrias tendem a se concentrar numa região, por isso os efeitos regionais tendem a ser importantes quando se desmonta uma indústria, como demonstra o caso da indústria naval, cujo quase desaparecimento nos anos 80 trouxe grandes impactos sobre a economia fluminense. Ou seja, o Estado tem que promover a reconversão da mão de obra e da região onde se localizava a indústria perdedora. Para a reconversão da mão de obra, deve-se investir pesadamente em educação de base para as gerações futuras e cursos de recapacitação dos trabalhadores da indústria que está sendo desativada, que fariam jus adicionalmente a um salário desemprego prolongado. Para a reconversão da s regiões afetadas, deve-se tentar aproveitar sua vocação natural adicionando novas áreas, induzindo empresas a ali se instalarem, mesmo que com incentivos fiscais. Obviamente que todos estres programas teriam custos para os governos em todos os níveis, mas muitas vezes manter uma indústria ineficiente tem um custo muito maior, ainda que seja invisível. Tudo isso só se faz com planejamento, visão de longo prazo, articulação entre todos os níveis de governo e blindagem política contra os lobbies das indústrias afetadas. É preciso lembrar que em todo processo de mudança, os afetados tendem a se mobilizar mais fortemente do que os beneficiados...

Desafios para um Brasil pós industrial

O Brasil deve se preparar para ser uma nação pós-industrial, ou seja, um país cujas forças produtivas estejam voltadas mais ao comércio de serviços e de tecnologia do que de bens. Sem dúvida este será um novo capítulo da história econômica do Brasil que se começa a escrever com a maior inserção do país no comércio internacional e com o deslocamento gradativo do Brasil da esfera de poder dos Estados Unidos para uma maior aliança (dependência?) com a China. O Brasil já teve sua fase agroexportadora, passou pela fase de indústria nascente para chegar a uma economia industrial solidificada, ainda que com assimetrias setoriais importantes. Da mesma forma que a passagem da fase de economia agro-exportadora para de economia industrial se precipitou por fatos externos (crise de 29 e Grande Depressão), a fase de economia pós-industrial está sendo gestada por um movimento exógeno que é a perda de valor do dólar e o surgimento da China como grande player comercial.

O pano de fundo para estes dois eventos concomitantes é a perda relativa do poder americano, o avanço da multipolaridade com grande papel de destaque reservado para a China que não só vende muitos produtos mas detém grande parte dos ativos mundiais, o que a torna grande credora dos governos norte-americanos e europeus e por isso com grande poder de influência nos rumos dessas economias que antes atuavam apenas guiadas por seus próprios interesses. Por essa razão, não há como duvidar da tendência de queda do dólar.

Somando-se a isso, há o grande apetite da China por novos mercados. A China persegue seu objetivo de se transformar na grande manufatura do mundo, já se notabilizando não apenas pela produção de produtos de baixo custo na área de brinquedos, têxtil e calçados mas também vem aumentando sua produção e exportação de produtos siderúrgicos, máquinas, automóveis e até aviões, em parceria com multinacionais estrangeiras ou por empresas puramente nacionais. A estratégia comercial chinesa é a diversificação de mercados e se utiliza não apenas de sua suas vantagens comparativas pelo baixo custo da mão de obra e ausência de legislação trabalhista, previdenciária e ambiental mas também do dumping e da manutenção do câmbio congelado em relação ao dólar. 

Com isso, a indústria nacional e a capacidade do governo brasileiro em preservar nosso parque industrial será muito seriamente posta à prova, principalmente por que a luta da indústria nacional com as manufaturas chinesas não se trava apenas no mercado interno brasileiro mas também nos principais mercados dos produtos industrializados brasileiros como Estados Unidos, México, e toda a América do Sul, incluindo dentro do Mercosul.

Ou seja, ainda que o governo brasileiro tome medidas protecionistas contra as importações chinesas, ele nada pode fazer para deter o avanço da China nos demais mercados dos produtos industriais brasileiros. Neste sentido, o Brasil teria duas alternativas: abandonar seus padrões trabalhistas, previdenciários, tributários e ambientais para tentar competir com o baixo custo da indústria chinesa, com resultados politicamente perigosos e economicamente incertos ou então tratar de construir um novo caminho usando as importações chinesas a seu favor...

Neste útimos dias, vi notícias de gente se insurgindo contra imagens religiosas nos tribunais e órgãos públicos. Acho muito engraçado essa neura de algumas pessoas com a religião. Será que não tem nada melhor para propor para a Justiça do que a simples retirada de um crucifixo? Meu Deus! Em meio a tanta senteça suspeita, participação de juízes com crime organizado, acesso desigual aos tribunais quando não se tem recursos para pagar bons advogados, impunidade de poderosos, vêm uns intelectuais (intelectual adora dizer que é ateu...) falar de laicidade??? Talvez se os juízes tivessem algum respeito por qualquer religião que fosse não concederiam tantos habeas corpus a bandidos e poderosos perpetradores de crime de colarinho branco. Justiça democrática é aquela que atente a todas as pessoas independente da condição financeira, isso sim. Você que se sente ofendido em ver uma cruz no Tribunal, deveria criticar sim o fato de milhões de brasileiros não poderem nem entrar no Tribunal !!! O que é mais importante para a democracia????

LAMAÇAL DO SENADO

Nas últimas semanas, assistimos a uma enxurrada de críticas da oposição e da mídia quanto à Presidência do Senado. Tentaram jogar toda a culpa da bandalheira patrocinada pelo conjunto dos Senadores nas costas de José Sarney, atual presidente do Senado. É aquela coisa, como o brasileiro em geral não acompanha política, é capaz de acreditar mesmo que o Senado era perfeito até o Sarney chegar à Presidência, com todos os nossos senadores sendo verdadeiros republicanos no trato da coisa pública. O PSDB por sua vez esquece que precisou do PMDB para governar nos anos FHC e que governou com toda essa gente antes. Mas como o brasileiro tem memória curta e a mídia oculta este fato das suas análises para dizer que é o Lula que patrocina o Sarney e o PMDB, segue-se a encenação de dizer que a crise do Senado é responsabilidade do governo, principalmente do Lula. Agora que o Conselho de Ética arquivou todas as denúncias contra Sarney, seja pela força do PMDB ou pelo telhado de vidro dos demais senadores, vão ter que dar razão ao Lula, que disse que o Senado está cheio de bons pizzaiolos...

Não que eu concorde com o balcão de negócios do Senado, mas há que se separar o problema do Senado com a manobra política da oposição em tentar arrumar uma crise para o Lula, na falta de críticas consistentes ao governo atual. O problema da oposição é que ela está perdida, pois o Lula, sabiamente lhes roubou a agenda. Como tem conseguido resultados expressivos na política econômica além de ter implementado uma política social sem precedentes na história do país (bolsa família, cotas raciais, ampliação do acesso ao ensino técnico e superior entre outras), resta inventar uma crise política para tentar roubar popularidade do Lula, que pode ser decisiva nas eleições vindouras. Tudo isso com o grande apoio da mídia, que omite fatos embaraçosos para a oposição como a aliança passada com este mesmo PMDB.

Agora, não se vê uma linha destes analistas subitamente inflamados por uma onda moralizadora sobre a necessária reforma política onde poderia se discutir, entre outros temas:

- fim do voto obrigatório para melhorar a qualidade do voto

- extinção do Senado e adoção de um sistema unicameral

- diminuição do número de Deputados Federais, estaduais e vereadores

- leis eleitorais rígidas contra doações irregulares

- fortalecimento dos Partidos

 

Enquanto não se discutir as verdadeiras causas da crise, vamos ficar assistindo a esta luta política disfarçada de onda de moralidade.

 

À ESPERA DE OBAMA

O mundo espera pela posse do novo presidente eleito dos Estados Unidos. A chegada de um negro à Presidência da maior potência do planeta foi recebida com júbilo ao redor do mundo. Se as expectativas são grandes, a decepção pode ser maior ainda. E grandes testes não faltam para o novo presidente: economia em frangalhos, negociações comerciais paralisadas, dilema sobre os destinos das tropas no Iraque e o genocídio palestino em Gaza. Diante da guerra, qualquer problema parece banal. Para saber se a eleição de OBAMA representou mesmo uma mudança na política norte-americana devemos esperar sua resposta à barbárie produzida por um dos mais antigos e fiéis aliados dos EUA: Israel acostumou-se com a proteção do grande irmão do norte e repete a cartilha norte-americana do combate ao terror. Obama terá coragem de romper com o círculo vicioso de terror e guerra na política norte-americana e israelense ou sucumbirá à pressão do lobby israelense encravado nos Estados Unidos? Se Obama falhar nesse primeiro teste, convalidando o massacre promovido por Israel em Gaza, será a prova de que nada mais parecido com um republicano do que um democrata...

A ERA DA TURBULÊNCIA

A crise financeira que tomou conta dos Estados Unidos tem alguma relação da crise de 29? Certamente é tentador fazer esse paralelo: ambas foram precedidas de um grande boom nos mercados acionários, a tal "exuberância irracional". Mas também há diferenças marcantes: a primeira é que o mundo hj é muito mais complexo mas principalmente hj os governos e Bancos Centrais não estão dispostos a ver o sistema financeiro quebrar, como em 29, pois sabem das consequências dramáticas para a economia e para a população. Como diz Polanyi, mercado livre não significa ausência de regulação...

Ao que parece, a direita está mostrando a cara no Brasil: exige que o Brasil apóie a doutrina Bush de "ataques preventivos" no caso da Colômbia e sua luta contra as FARC, AINDA QUE PARA ISSO TENHA QUE INVADIR O TERRITÓRIO DE OUTRO PAÍS; condena o Bolsa Família por pretensamente impedir a formação de "emprendedores capitalistas" (vide post sobre a POOR LAW) etc. Que bom, sempre é bom saber a verdade que se escondia por trás da inércia dos governos anteriores para atacar o problema central do Brasil que era a miséria e a desigualdade...

Rapaz, faz tempo que eu mesmo não entro no meu blog...rs

Nossa filha já está trazendo grandes mudanças na casa...Estamos preparando tudo para bem recebê-la, adequando os quartos, comprando e mandando fazer novos móveis, pintando, tudo pra deixar a casa aconchegante pra ela e pra nós tb, claro! O mais difícil está sendo arrumar espaço para todas as nossas tranqueiras, principalmente livros. Caramba, como é difícil se desfazer deles!! Sempre achamos que ainda vamos ler todos os livros da casa...rs Já fizemos uma grande doação há uns meses mas ainda tem muita coisa. Pelo menos tomei uma decisão: vou me desfazer de xerox do mestrado. Até pq minha área no Doutorado (projeto pro futuro) vai ser outra mesmo, pretendo voltar pra Economia, então não preciso de material de Relações Internacionais. Quanto aos livros de RI e negociações, vou esperar mais um pouco. A não ser as tranqueiras tipo Revista de Política Externa, que realmente não têm mais serventia de nada. Se vc conseguiu ler até aqui, fica um conselho: pense bem antes de comprar um livro, vc pode estar comprando apenas uma pilha de papel.

A Poor Law e o Bolsa Família

Em repouso forçado por causa da anemia, peguei para reler um capítulo do livro do Karl Polanyi, "A grande transformação", que descreve o surgimento do credo liberal. Interessante notar que as críticas da direita ao Bolsa Família são as mesmas que os industriais ingleses faziam à Poor Law no período que antecedeu à revolução industrial na Inglaterra. Dizia-se que era um estímulo à vagabundagem e dificultava a formação de um mercado de trabalho. No Brasil uma pesquisa do IPEA já demonstrou que o Bolsa Família não interfere no mercado de trabalho, até porque o rendimento do trabalho (salário mínimo) é muito maior que o benefício do Bolsa Família, o que torna o argumento totalmente anti-econômico. Bem, nada que surpreenda mesmo, já que toda ideologia carece de fundamento racional...

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Depois do crescimento do PIB, acabou de sair os resultados da nova PNAD. A oposição deve estar babando de raiva com mais esta saraivada de bons indicadores que a pesquisa mostra: redução do analfabetismo em quase 5%, aumento dos estudantes de nível superior em mais de 13%, aumento real do salário (7%), aumento do emprego formal, redução da concentração de renda e tantos outros indicadores, tudo isso EM UM ANO !!! Não que seja uma revolução social, mas serve para mostrar o quão inertes foram os governos tucanos na área sociail. A persistir neste passo, somente uma catástrofe impede o Lula de fazer o seu sucessor.

Política Externa de Lula

Recentemente a Política Externa de Lula recebeu críticos de analistas e diplomatas ligados ao grupo que chefiou o Itamaraty durante o governo FHC. As críticas são na verdade faces da mesma moeda. Uma crítica é de que há um viés anti-americanista e terceiro-mundista nas relações exteriores praticadas pelo governo Lula, a outra é que o Brasil seriam muito condescendente com os vizinhos Venezuela e Bolívia.

Para entender estas críticas, é preciso primeiro entender quem as faz. São diplomatas, acadêmicos e jornalistas ligados ou que apenas se identificam com o Embaixador Celso Lafer, ministro das relações exteriores durante os anos FHC. Lafer e seus seguidores acreditavam que com a simples adesão aos regimes internacionais pretendidos pelos EUA (como TNP e ALCA), teríamos a simpatia da potência hegemônica para conseguir um assento no CS, uma vaga na OCDE e assim a entrada automática do Brasil no grupo dos países desenvolvidos. Também é possivel identificar uma visão benigna das relações internacionais, onde os conflitos internacionais e a política de poder haviam sido substituídas, com o fim da Guerra Fria, pela cooperação internacional.

Como conseqüência dessa leitura de mundo, a linha da política externa de Lafer variou entre o Globalismo Grotiano e o Americanismo Ideológico, conforme classificação corrente da política externa brasileira(PINHEIRO). Exemplos de iniciativas que corroboram com essa caracterização são a adesão ao TNP, algo que o Brasil sempre repudiou por ser um congelamento de poder, a invocação pelo Brasil do TIAR depois do 11 de setembro, a relutância do Itamaraty em abrir contenciosos agrícolas contra os EUA e a caminhada que o Brasil fazia rumo à assinatura da ALCA.

Com esse histórico, não se admira que se enxergue antiamericanismo na atual política externa, já que o Brasil, a despeito do bom relacionamento com Washington, não se furta a criticar a postura norte-americana seja na luta contra o terrorismo, que culminou com a invasão ilegítima do Afeganistão e do Iraque, como também na esfera comercial, com a crítica aos subsídios e os sucessivos painéis contra os americanos na OMC. Com essa postura, o Brasil se fortaleceu politicamente e hoje é um interlocutor imprescindível nas negociações comerciais e também na esfera política. Não é por coincidência que praticamente no mesmo dia, Lula recebe a visita de dois chefes de Estado importantes no mundo, que são o Presidente da Alemanha, o país mais poderoso da Europa, e os Estados Unidos.

Também são recorrentes as críticas de que o Brasil adota uma postura terceiro-mundista. Esquecem-se de que talvez tenha sido a aproximação que o Brasil fez com os paises em desnvolvimento a responsável pela liderança que o País exerce sobre o G-20, que é reconhecido até pelos países desenvolvidos como a maior conquista dos países em desenvolvimentos na atual negociação da OMC. Com o G-20,  os países em desenvolvimento conquistaram o direito de serem ouvidos e influenciar decisivamente sobre as propostas negociadoras, o que era impensável nas Rodadas anteriores.

Na América Latina, o Brasil é acusado de ser chavista e de ter consentido com a entrada da Venezuela no Mercosul por considerações políticas. Críticas infundadas, dado o peso das compras venezuelanas nas exportações do Brasil (maiores que as da França e só menores que as da Argentina na América do Sul), sem contar o papel da Venezuela na área energética e logística. Logo, a entrada da Venezuela no Mercosul não pode ser entendida apenas como um gesto político como muitos pretendem.

Outra crítica é o Acordo do Gás com a Bolívia, que lembra muito a oposição que sofreu o Barão do Rio Branco por ter negociado com a mesma Bolívia a compra do território do Acre. Por certo, esses críticos diriam que o Barão deveria ter "endurecido" com a Bolívia e tomado seu território sem nenhuma compensação...Da mesma forma que hoje se aplaude o desempenho do Barão do Rio Branco na questão do Acre, certamente o Acordo do Gás da Bolívia será elogiado no futuro por garantir o suprimento desse insumo para a indústria nacional.

Não distinguir o discurso da prática é um erro primário para quem quer compreender a política ou as relações internacionais. Pode até ser que o governo por vezes adote uma retórica anti-americanista e terceiro mundista, mas ela é voltada para um público interno, já que o Partido no poder identifica-se com as posições de esquerda e tem forte penetração nos movimentos sociais, notoriamente antiamericanistas.

Na prática, Lula e Celso Amorim cativam um excelente relacionamento com os Estados Unidos( haja vista as inúmeras visitas de representantes do governo norte-americano ao governo brasileiro, culminando com a visita do Presidente Bush), ao mesmo tempo em que mantêm um diálogo estreito com líderes como Hugo Chaves e Evo Morales. A melhor caracterização da política externa de Lula seria com o Pragmatismo Responsável de Geisel, buscando alianças com diversos parceiros em todos os continentes sem, contudo, afrontar a grande potência mundial. Para não enxergar isso, é preciso estar cego, por burrice ou por ciúmes.

 

Dizem que brasileiro não pode viajar para fora do país que já volta com sotaque...Que bom seria que além de adquirir sotaque, eletroeletrônicos e bugigangas em geral, também adquirisse hábitos civilizados. Tudo bem que a Suíça é extravagante até para países desenvolvidos, mas lá há muitos exemplos de civilidade que bem nos serviriam: os donos de cachorros recolhem os excrementos dos animais, até quando estes defecam na grama, algo que causaría espanto até no Lago Sul. Outro exemplo: se Braslía se orgulha de respeitar a faixa de pedestre (como se fosse algo de extraordinário numa cidade que há mais carros do que gente nas ruas), lá os carros param em qualquer cruzamento mesmo quando estão em conversão. Um último: os ônibus não têm cobradores e cabe a cada um retirar sua passagem numa máquina ou andar com um passaporte próprio. Ok, alguém pode dizer que lá há uma multa pesada para o caso de ser pego sem a passagem dentro do ônibus mas alguém acreditaria em multa pra pedestre no Brasil? Bem, estes são apenas alguns dos exemplos. O que há de mais importante lá é a preocupação com o bem público: Estado e cidadãos se esmeram em cuidar do patrimônio público inclusive chamando a atenção de transgressores. Nada mais efetivo que o controle social para coibir atos anti-sociais...Ainda continuo com minha tese de que o pior do Brasil são os brasileiros...

Como hoje comemora-se 70 anos do livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, resolvi postar algo no blog sobre essa obra que tem contribuído para o entendimento do Brasil desde sua publicação.

 

Gostaria aqui de analisar o fenômeno da corrupção endêmica como parte da cordialidade brasileira, tão bem analisada por Sérgio Buarque nessa obra. Antes de mais nada, nunca é demais lembrar que a cordialidade de que fala Sérgio Buarque nada tem a ver com bons modos, simpatia ou amor ao próximo.

 

Ao contrário do que poder-se-ia inferir do termo, o homem cordial é no fundo um egoísta  pois busca substituir as relações institucionais por relações inter-pessoais para se atingir mais facilmente seus objetivo. É por esse motivo que a burocracia no sentido weberiano nunca conseguiu se implantar no Brasil, pois os indivíduos simplesmente a rejeitam! Também explica porque muitas leis no Brasil não “pegam” e porque aqueles que são pegos em infração legal se sentem “injustiçados”.

 

Nesse ambiente, não seria de se espantar que a corrupção passasse de um desvio de conduta para uma praga endêmica. A corrupção é apenas a cordialidade exercida de outra forma, parodiando um velho ditame da geopolítica.

 

Muitos são induzidos pelos jornais e noticiários que a corrupção só acontece no Congresso Nacional ou nas repartições públicas, contudo ela está espalhada em todas as esferas da vida nacional, como igrejas, associações, clubes esportivos até mesmo no nosso condomínio...

 

Na esfera privada consente-se muito mais com a corrupção do que se admite publicamente: quantos de nós não conhecemos desvios éticos de parentes e amigos sem que tenhamos mostrado nossa indignação? Para preservar as relações que podem lhe ser úteis mais  à frente, o brasileiro prefere contemporizar à criticar. Além disso, é infindável o número de pequenos desvios éticos tolerados, como infrações de trânsito, furar fila por meio de amigos, o ato de “presentear” funcionários chaves na organização.

 

Qual o efeito dessas características na organização social brasileira? Paradoxalmente, a cordialidade enfraquece os laços sociais pois ao enfatizar a solução ad hoc dos problemas por parte de cada indivíduo diminui a busca de soluções coletivas. É dessa forma que se fortalecem os lobbies os grupos de pressão que só favorece os mais fortes, ao invés dos mais necessitados. Vê-se, pois, que o patrimonialismo pode ser considerado um primo irmão da cordialidade.

 

Veja-se este trecho de Raízes do Brasil: "O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do correspondente irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente." Logo, se queremos uma verdadeira república guiada por princípios éticos e de impessoalidade, temos que devolver a cordialidade ao território verdadeiro: as relações familiares e de amizade. Na vida pública, no entanto, a razão deve falar mais alto que o coração.

Algumas obras são fundamentais para entender o Brasil. Na minha opinião, elas deveriam ser de leitura obrigatória ainda no Segundo Grau, numa disciplina que preenchesse  a lacuna deixada pela extinta “Moral e Cívica”.

A primeira dessas obras é o livro “Formção do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr. Nesse livro Caio Prado analisa o período colonial brasileiro não de forma descritiva mas com o uso do  método do materialismo histórico, ou seja analisando as bases materiais da colonização. Aliás, o autor trata de definir melhor o termo “colonização” para o caso brasileiro logo no primeiro capítulo chamado de “O Sentido da Colonização”.

 

Brasil como empresa comercial

 

Primeiramente, Caio Prado coloca a colonização portuguesa no Brasil apenas como mais um capítulo da expansão marítima européia depois do século XV, o que já define o caráter mercantil que caracterizaria a fase dos “descobrimentos”. Primeiramente, os portugueses trataram de explorar as alternativas mais fáceis de produtos para comercializar, com produtos como o pau-brasil. Esgotadas as possibilidades de lucro com o extrativismo passaram a atividade agrícola com produtos como cana de açúcar, fumo e outros. Para o infortúnio dos portugueses, só quase no final do período colonial é que o sonho dourado se tornou realidade... Em suma, não foi por qualquer interesse de povoamento, mas em torno do  comércio de produtos cujo comércio pudesse gerar lucros pra metrópole  é que se estruturaram a economia e a sociedade do país.

 

Colônia de Povoamento x Colônia de Exploração

 

Um segundo ponto muito importante destacado por Caio Prado Jr é a natureza distinta da colonização no zona tropical e nas zonas temperadas da América do Norte. As zonas temperadas recebem um grande contingente de imigrantes europeus com interesse em construir um mundo novo, fugindo da perseguição religiosa ou por terem sido expulsos de suas terras em razão dos “cercamentos”. Já a adversidade dos trópicos repele o povoador e só atrai aventureiros ou exploradores, que não estavam dispostos a despender esforço físico com o trabalho. De livre e espontânea vontade só viriam que tivesse recursos para se fixar como dirigente, explorando o trabalho de outros. Não é a toa que o trabalho braçal e menos qualificado no Brasil é ainda tão desvalorizado... Esse sentido da colonização como bem descrito por Caio Prado continua a impactar nosso presente até hoje.

 

Traços do Passado

 

Como na época em que Caio Prado escrevia, podemos dizer que até hoje o trabalho livre no Brasil ainda não se afirmou completamente, seja pela precariedade dos salários, pela massa de desempregados e de trabalhadores informais que impedem formas modernas de relacionamento entre empregados e empregadores. É claro que a intensidade com que esse fenômeno se verifica varia conforme a região do país e também do setor da economia mas de forma geral está presente em todo o Brasil.

A própria identificação do negro com a pobreza, com as classes sociais mais baixas está intimamente ligado ao passado colonial que ainda tentamos superar. A discussão de uma  política de quotas para negros nas universidades é prova de que esse traço colonial permanece...

 

Na próxima postagem, Sérgio Buarque de Holanda vai nos ajudar a entender o papel dos valores na reprodução de um modelo de exploração que já não persiste nos dias atuais.

Minha tese sobre o Brasil é a seguinte: O PIOR DO BRASIL É O BRASILEIRO. Nas próximas postagens tentarei desenvolver essa idéia me apoiando em obras clássicas sobre a formação do Brasil e da nacionalidade brasileira.
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