Algumas obras são fundamentais para entender o Brasil. Na minha opinião, elas deveriam ser de leitura obrigatória ainda no Segundo Grau, numa disciplina que preenchesse  a lacuna deixada pela extinta “Moral e Cívica”.

A primeira dessas obras é o livro “Formção do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr. Nesse livro Caio Prado analisa o período colonial brasileiro não de forma descritiva mas com o uso do  método do materialismo histórico, ou seja analisando as bases materiais da colonização. Aliás, o autor trata de definir melhor o termo “colonização” para o caso brasileiro logo no primeiro capítulo chamado de “O Sentido da Colonização”.

 

Brasil como empresa comercial

 

Primeiramente, Caio Prado coloca a colonização portuguesa no Brasil apenas como mais um capítulo da expansão marítima européia depois do século XV, o que já define o caráter mercantil que caracterizaria a fase dos “descobrimentos”. Primeiramente, os portugueses trataram de explorar as alternativas mais fáceis de produtos para comercializar, com produtos como o pau-brasil. Esgotadas as possibilidades de lucro com o extrativismo passaram a atividade agrícola com produtos como cana de açúcar, fumo e outros. Para o infortúnio dos portugueses, só quase no final do período colonial é que o sonho dourado se tornou realidade... Em suma, não foi por qualquer interesse de povoamento, mas em torno do  comércio de produtos cujo comércio pudesse gerar lucros pra metrópole  é que se estruturaram a economia e a sociedade do país.

 

Colônia de Povoamento x Colônia de Exploração

 

Um segundo ponto muito importante destacado por Caio Prado Jr é a natureza distinta da colonização no zona tropical e nas zonas temperadas da América do Norte. As zonas temperadas recebem um grande contingente de imigrantes europeus com interesse em construir um mundo novo, fugindo da perseguição religiosa ou por terem sido expulsos de suas terras em razão dos “cercamentos”. Já a adversidade dos trópicos repele o povoador e só atrai aventureiros ou exploradores, que não estavam dispostos a despender esforço físico com o trabalho. De livre e espontânea vontade só viriam que tivesse recursos para se fixar como dirigente, explorando o trabalho de outros. Não é a toa que o trabalho braçal e menos qualificado no Brasil é ainda tão desvalorizado... Esse sentido da colonização como bem descrito por Caio Prado continua a impactar nosso presente até hoje.

 

Traços do Passado

 

Como na época em que Caio Prado escrevia, podemos dizer que até hoje o trabalho livre no Brasil ainda não se afirmou completamente, seja pela precariedade dos salários, pela massa de desempregados e de trabalhadores informais que impedem formas modernas de relacionamento entre empregados e empregadores. É claro que a intensidade com que esse fenômeno se verifica varia conforme a região do país e também do setor da economia mas de forma geral está presente em todo o Brasil.

A própria identificação do negro com a pobreza, com as classes sociais mais baixas está intimamente ligado ao passado colonial que ainda tentamos superar. A discussão de uma  política de quotas para negros nas universidades é prova de que esse traço colonial permanece...

 

Na próxima postagem, Sérgio Buarque de Holanda vai nos ajudar a entender o papel dos valores na reprodução de um modelo de exploração que já não persiste nos dias atuais.

Minha tese sobre o Brasil é a seguinte: O PIOR DO BRASIL É O BRASILEIRO. Nas próximas postagens tentarei desenvolver essa idéia me apoiando em obras clássicas sobre a formação do Brasil e da nacionalidade brasileira.
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