Como hoje comemora-se 70 anos do livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, resolvi postar algo no blog sobre essa obra que tem contribuído para o entendimento do Brasil desde sua publicação.

 

Gostaria aqui de analisar o fenômeno da corrupção endêmica como parte da cordialidade brasileira, tão bem analisada por Sérgio Buarque nessa obra. Antes de mais nada, nunca é demais lembrar que a cordialidade de que fala Sérgio Buarque nada tem a ver com bons modos, simpatia ou amor ao próximo.

 

Ao contrário do que poder-se-ia inferir do termo, o homem cordial é no fundo um egoísta  pois busca substituir as relações institucionais por relações inter-pessoais para se atingir mais facilmente seus objetivo. É por esse motivo que a burocracia no sentido weberiano nunca conseguiu se implantar no Brasil, pois os indivíduos simplesmente a rejeitam! Também explica porque muitas leis no Brasil não “pegam” e porque aqueles que são pegos em infração legal se sentem “injustiçados”.

 

Nesse ambiente, não seria de se espantar que a corrupção passasse de um desvio de conduta para uma praga endêmica. A corrupção é apenas a cordialidade exercida de outra forma, parodiando um velho ditame da geopolítica.

 

Muitos são induzidos pelos jornais e noticiários que a corrupção só acontece no Congresso Nacional ou nas repartições públicas, contudo ela está espalhada em todas as esferas da vida nacional, como igrejas, associações, clubes esportivos até mesmo no nosso condomínio...

 

Na esfera privada consente-se muito mais com a corrupção do que se admite publicamente: quantos de nós não conhecemos desvios éticos de parentes e amigos sem que tenhamos mostrado nossa indignação? Para preservar as relações que podem lhe ser úteis mais  à frente, o brasileiro prefere contemporizar à criticar. Além disso, é infindável o número de pequenos desvios éticos tolerados, como infrações de trânsito, furar fila por meio de amigos, o ato de “presentear” funcionários chaves na organização.

 

Qual o efeito dessas características na organização social brasileira? Paradoxalmente, a cordialidade enfraquece os laços sociais pois ao enfatizar a solução ad hoc dos problemas por parte de cada indivíduo diminui a busca de soluções coletivas. É dessa forma que se fortalecem os lobbies os grupos de pressão que só favorece os mais fortes, ao invés dos mais necessitados. Vê-se, pois, que o patrimonialismo pode ser considerado um primo irmão da cordialidade.

 

Veja-se este trecho de Raízes do Brasil: "O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do correspondente irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente." Logo, se queremos uma verdadeira república guiada por princípios éticos e de impessoalidade, temos que devolver a cordialidade ao território verdadeiro: as relações familiares e de amizade. Na vida pública, no entanto, a razão deve falar mais alto que o coração.

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